Um som contínuo anuncia o começo de um novo dia, arrancando-me do mundo dos sonhos. Continuo de olhos fechados, esperando que o barulho pare. Contudo, ele continua, cada vez mais alto. Dando-me por vencida levanto-me e carrego no botão que faz parar aquele som irritante. E volto a dormir. 5 minutos depois, a minha curta paz é de novo interrompida pelo som do despertador.
Desisto. Levanto-me, de olhos ainda meio fechados, perguntando a mim mesma porque não me deitei mais cedo na noite anterior. Noite, como quem diz, já era mais madrugada que noite. Depois resmungo contra o facto de as aulas de manhã cedo existirem. Mas como isso não muda nada e continuo a ter de ir para as aulas nesse dia, dirijo-me para a casa de banho, com esperanças que um banho consiga realizar a tarefa em que o despertador fracassou... Acordar-me.
Já de banho tomado e um pouco mais desperta, dirijo-me para o meu quarto a fim de me cobrir com alguma roupa. Em seguida dá-se a habitual batalha contra a roupa, que nunca parece estar do meu agrado, embora seja exactamente igual à roupa que eu escolhi na noite anterior e que me agradara nessa altura. Não gosto. Tiro outra roupa do armário. Continuo a não gostar. Um pensamento de raiva contra o cabelo começa a aparecer. Resmungo contra o facto dele ter acordado contra a minha vontade. Uma leve irritação começa a formar-se. Entretanto, a roupa começa a amontoar-se em cima da cama, sem ser encontrada uma candidata. Um grito de guerra é ouvido, vindo da divisão ao lado, dizendo-me que se não me despachar vou chegar atrasada. Suspirando, dou-me novamente por vencida e agarro a roupa que menos me desagrada. Em seguida corro para a casa de banho e tento, inutilmente, dar ao cabelo um aspecto que me agrade minimamente. Depois de varias tentativas frustradas dou o seu aspecto por aceitável e corro novamente para o meu quarto. A pasta que já devia estar feita desde o dia anterior é cheia com livros e cadernos, correndo o risco de serem os cadernos e livros errados, mas não me importando muito com isso. Pelo menos, importando-me mais com o relógio que anunciava em números bem grandes que ou me despachava ou ia chegar atrasada.
Desço as escadas de 3 em 3 degraus e bebo o leite em 5 segundos. Corro novamente escadas acima e só tenho tempo de pegar na mochila e no casaco antes de continuar a correr em direcção ao carro, esperando ainda ir a tempo. Olho para o relógio e um alívio enche-me o peito. Ainda faltam vinte minutos. Uma coisa é certa, esta correria executou na perfeição a tarefa que o despertador e o banho não conseguiram por completo. Recupero o fôlego no banco do carro, enquanto é feita a habitual viagem de 5 minutos, em direcção ao colégio.
Passados 5 minutos, cá estamos nós. À porta do colégio. Olho para ele e não consigo deixar de sorrir, apesar de todo o nervosismo e irritação matinal que se haviam formado devido aos acontecimentos anteriores. A entrada do colégio, tão imponente e ao mesmo tempo tão desgastada pelos seus anos de vida e de utilização... E claro, pela teimosia da direcção que se recusa a fazer obras e tornar aquele colégio num sítio em condições. Continuo a observar aquela fachada... Aquele edifício tão velho e deteriorado, mas ao mesmo tempo tão... Acolhedor. Apesar do seu aspecto frágil e danificado, emanava uma aura de segurança e felicidade, uma sensação de reconforto. Por entre o nevoeiro de uma fria manhã de Maio, ergue-se com um ar de mistério, de quem encerra dentro de si uma vida... Um ar de quem testemunhou tantas vidas, tantos segredos, tantas alegrias e tristezas, desilusões, amores e desamores... Amizades. Quantos momentos aquelas paredes frias e corroídas não assistiram, quantos sentimentos não ficaram embebidos naquelas estruturam que à primeira vista parece apenas um amontoado de pedras e tijolos. O céu encoberto, deixando alguns tímidos raios de sol transparecer por entre o tecto de nuvens que se formava por cima de mim, dá-lhe um ar quase... Mágico. Talvez seja reflexo de todos os momentos maravilhosos que vivi dentro destas quatro paredes.
Com um sorriso, volto à realidade e percebo que estive cinco minutos observando o colégio, quase que hipnotizada. Toda as más sensações geradas previamente naquela manhã agora não passavam de simples memórias. Sorrio mais uma vez ao aperceber-me de tal facto e empurro a pesada porta do colégio, sabendo que ia ser a primeira vez de incontáveis vezes que iria fazer aquele gesto naquele dia. Ah... Doce habitual.
Subo as escadas e passo pelo corredor, descendo de seguida as escadas que me levam ao recreio. Como de habitual, cumprimento quem lá está. Acabo de descer as escadas e pouso a mochila num amontoado de mochilas que se encontra ao fundo das escadas, encostadas à parede, embora saiba perfeitamente que é proibido deixar as mochilas naquele local. Em seguida vejo o André, que como de costume está sentado nos bancos com a cabeça pousada sobre os braços, com ar de quem acha que aulas à segunda-feira de manhã deviam ser proibidas. Os phones estão colocados nos ouvidos, ouvindo música como habitual. Aproximo-me dele e assusto-o. Ele olha para mim com cara de sonâmbulo, como se dissesse que se não estivesse com demasiado sono para tal matava-me. Rio-me da cara dele e deixo-o dormir em paz. Dirijo-me para a sala (se é que se pode chamar de sala) seguinte, que apenas se destina a possuir cabides, mas que é um dos sítios favoritos de toda a gente. Deitada no banco está a Cátia, encostada à parede fria, com um casaco por cima dela, ouvindo música. A cara dela apresenta a típica expressão "Não-me-toques-ou-arriscas-te-a-morrer". Suspirando, pergunto a mim mesma o que se terá passado desta vez. Aproximo-me dela e pergunto-lhe o que se passa.
Depois de conversarmos um pouco, atravesso a porta que dá para o recreio. Sentadas nos bancos de pedra, vejo a Mafalda e a Catarina. Sorrio e aproximo-me delas, sendo abraçada pela Mafalda. Aquele abraço... Que parecia fazer desaparecer tudo que pudesse estar mal no mundo. Abraço-a de volta, desejando nunca perder estes abraços, por muito tempo que se passasse. Estes abraços e principalmente a ela. A ela e todos que faziam daquele colégio a minha segunda casa. Aqueles que me faziam ter vontade de ir para a escola a uma segunda-feira de manhã. Aqueles que me faziam feliz. Desejei que isto nunca acabasse, por muito que este ano estivesse inevitavelmente a acabar. Desejei que esta sensação de companhia, de segurança, de felicidade e de amizade fosse interminável. Esta sensação de doce e reconfortante habitual. Separo-me dela e sorrio-lhe, dando um beijo à Catarina. Sento-me ao seu lado e falamos sobre o que fizemos no fim-de-semana, enquanto ouço as suas peripécias do costume. Sinto-me tão bem ali. Sinto-me segura, protegida, feliz. De repente chega a Cátia, já completamente recuperada e no seu estado habitual de energia pura. Põe-me a ouvir Nirvana, enquanto cantamos as duas e fazemos as palhaçadas usuais. Ah... Bendita rotina.
De repente a campainha toca, anunciando o final da felicidade e o inicio do estudo. Não tendo outra hipótese, arrumamos as coisas e dirigimo-nos às escadas que levam à sala. O André ainda continua no mesmo sítio, estremunhado por ter sido acordado subitamente pela campainha enquanto a Mafalda o puxa em direcção à sala. Chegamos à porta da sala e esperamos que a professora chegue e nos abra a porta. Entretanto cumprimento o resto da turma e discuto com a Joana e o Manel os desenhos animados do fim-de-semana ou o anime que descobrimos. A professora chega e é com relutância que entramos na sala. Sento-me ao lado da Isabel e sorrio, começando a conversa costumeira de como correu o fim-de-semana, enquanto o sumário é escrito no caderno. Felizmente acertei nos livros. Em seguida a professora pede para abrirmos o livro e estarmos atentos. A primeira ordem é executada com prontidão, a segunda... Apenas por meia dúzia de pessoas que tentam esforçar-se por estar atentos a uma aula de Ciências numa sonolenta segunda-feira de manhã. Olho para a professora e tento ouvir o que diz. Entretanto, vou ouvindo o que me dizem de trás e dos lados também. Ah... Maravilhosa skill que me foi dada, conseguir estar atenta à professora e aos colegas ao mesmo tempo. Não à duvida que dá jeito. Bilhetes escritos em folhas de papel rasgadas à pressa começam a movimentar-se de um lado para o outro da sala. Às vezes servimos de intermediário, outras de receptor. Planos para a semana e para o fim-de-semana, comentários, desabafos, jogos da batalha naval, novidades… Tudo era escrito em pedaços de papel de todos os tamanhos e enviado para o outro lado da sala.
De repente, batidas na porta. Não é preciso adivinhar para saber quem é. A porta é aberta e uma Bárbara sem fôlego e atrapalhada entra na sala, enquanto vai pedindo desculpas à professora, como habitualmente. Trocamos um olhar de cumplicidade, uma cumplicidade que só nós temos. Numa mensagem silenciosa ela diz-me que tem novidades. Entretanto a professora tenta manter a ordem e marca um exercício. O Diogo e companhia começam a confusão habitual lá atrás, forçando a professora a ir lá. Eu e a Isabel dedicamo-nos ao exercício. Acabo-o e viro-me para trás, esperando que a Bárbara me conte a novidade. Conversamos um pouco, por entre a confusão que se gerou na sala. A professora cansa-se da confusão e volta a impor ordem na sala. O resto da aula é passado em silêncio, com alguns murmúrios e alguns bilhetes sobreviventes e mais corajosos.
A campainha toca, anunciando a liberdade... E a confusão geral. Cadeiras a arrastar, mesas a mexer, lápis, borrachas, canetas, livros e cadernos a serem guardados, pessoas a correr para fora da sala. A professora tenta marcar o trabalho de casa, mas em vão. Eu aponto-o no caderno e dirijo-me para a terceira mesa atrás de mim, onde fica a Bárbara. Pegamos nas coisas e reunimo-nos à Catia e à Catarina. Descemos as escadas e entregamos o cartão. Como de costume esqueci-me do meu. Uma alma caridosa chamada Lena lá me deixa sair, com o aviso de que esta será a ultima vez. Agradeço e desço as escadas a correr, abrindo a porta e juntando-me a elas que me esperam lá fora. Encaminhamo-nos para o "Sérgio". Entramos e fazemos os pedidos habituais. Para mim a minha amada torrada e para a Bárbara a tosta-mista cravada. Acabamos de comer e dirigimo-nos para a casa de banho, onde se dá a destruição total desta. Eu tento lavar o aparelho, enquanto a Cátia faz o mesmo, só que sujando o lavatório todo de pasta de dentes, dizendo que é o Monstro da Boca branca. Eu rio-me, acabando por ficar como ela, com a boca toda branca. Alguém bate à porta. Ouve-se um grito a perguntar o que raio era aquela confusão. Só podia ser a Raice. Limpamos a confusão toda e saímos da casa de banho, voltando ao colégio.
Mais uma aula passada da mesma maneira. História. Mais interessante mas ainda assim a segunda-feira de manhã continua a fazer surtir efeito. A aula passa e é hora de comer. Vou para casa dos meus tios com a Bárbara, conversando o caminho todo. Ah, como é bom conversar com a minha sakura-chan... Esta sensação de estar completa. Almoço e leio um pouco. Também ouço música. Pouco tempo depois a Bárbara bate à porta. Desce e encaminhamo-nos para a Lan, onde nos divertimos a jogar CS. Como são bons estes momentos entre amigos. E principalmente, morrer, que era o mais habitual. As horas passam a voar e é tempo de ir para não chegar atrasados. As aulas de tarde passam igualmente a voar. O dia acaba e a noite chega. Alguns ficam no colégio até tarde, outros vão logo embora. Despedimo-nos, com vontade que o dia não acabe e que o amanhã chegue depressa.
Nos corações fica o sentimento de alegria e felicidade por um dia tão bom com umas pessoas tão maravilhosas e já uma ponta de saudade. Um sentimento de melancolia e de querer mais apodera-se de nós. Separamo-nos, temporariamente, desejando que esta rotina nunca acabe e por mais tempo que passe , no dia a seguir acordemos e comecemos esta doce rotina de novo.
Ah... Esta doce melancolia do habitual... Este sentimento que guardo desde que nos separamos... E espero nunca perder.
----------------------------------------------------------------------------------------------
Texto escrito algures no Verão de 2007, dedicado à minha antiga turma. Peço desculpa por mais uma vez ser enorme. ^-^''