sábado, 25 de abril de 2009

Untitled (Yet)

Estava um dia solarengo, em que o sol espreitava por detrás das nuvens, como promessa de um dia quente e alegre. Por entre uma fila de carros que parecia interminável, um carro se destacava da multidão.

Mãe e filha viajavam nele, numa tentativa de chegar à escola a horas e, mais tarde, ao trabalho. O silêncio reinava, não por alguma razão em especial, mas sim devido às horas que eram e à influência do implacável sono. Apenas o rádio canta, para ninguém em especial, talvez para toda a gente.

Quando, como se rompesse um feitiço (talvez só o pensamento de mãe e filha), uma música começa na rádio.

“Quem vem e atravessa o rio…”

De imediato, mãe e filha cantam numa só voz, que não vem da boca mas sim do coração, aquela música, aquelas músicas, aquele autor que lhes diz tanto.

Cantam a letra, sabem-na de cor, mas, para elas, não é apenas a letra que escutam. Quando a escutam juntas, por entre palavras, metáforas, comparações e rimas, elas conseguem ouvir o que o cantor não diz. Elas conseguem ouvir o que o coração da outra canta, uma canção de amor e felicidade, de amizade e união, cantada ao ritmo das músicas de Rui Veloso.

Quando a música termina, sorriem uma para a outra. O silêncio volta instalar-se, mas o mais importante foi dito. Afinal, as coisas mais importantes são ditas e escutadas com o coração.

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Embora já ninguém aqui venha, aqui fica. Texto escrito a pedido da minha mãe ^-^.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Obrigada

Seus olhos sábios,
De quem ensina uma lição;
Ilustram uma obra prima
De corpo, alma e coração.

Seu cabelo, já tão fino,
Branco como a neve mais pura.
Sua cabeça, já tão desgastada,
Mas ainda encerrando tanta cultura!

Suas mãos enrrugadas,
Nunca escasseam de vida:
Tricô, cozinha,
Jardinagem e arrumos,
Provando que a velhice pode ser tão colorida!

Sua cara, por vezes severa,
Mas sempre armada com um sorriso.
E o seu doce riso,
Escutá-lo para sempre, quem me dera!

Foi segunda mão, foi tia,
Foi mestre, foi professora,
Foi exemplo e foi guia.

Ensinou-me a ser forte e lutadora.
Ensinou-me principios e valores
E o nome de todas as cores.

Pegou em mim pequenina,
Frágil como uma rosa.
E com ajuda fez de mim,
Alguém que escreve prosa.

Por ti, querida tia,
Guardo este enorme sentimento.
E aqui fica registado
O meu eterno agradecimento.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Noite em Branco

A noite em branco. Sombria e tumultuosa noite que, por sua vez, desperta em nós não só o sono como também acode às nossas preocupações, aos nossos medos, aos nossos fantasmas de consciência. Por ventura, este tipo de descanso espiritual não tem só partes más: podemos reaproveitar o nosso tempo em que nos contorcemos na cama procurando com afinco a melhor posição para pegar o sono pensando na vida, nos amigos, tentando libertar de nós tudo o que é bom, mas que com azar, atrai o que não é tão bom.
Vigorosa a noite de descanso é. Odiosa é aquela em que a insónia nos abate de tal modo que em certa parte culpamo-nos a nós mesmos o facto de não conseguir dormir. O receio de acordar tarde e outrora atrasados na manhã seguinte abala-nos ainda mais.
A noite em branco. O assalto do passado, do presente e, quiçá, do futuro que para vir é inevitável. Num instante a vida parece um sonho eterno. O planeta deixa a sua órbita em torno do Sol e concentra-se em nós.
Por momentos, pensamos em voltar a tentar adormecer mas, olhando novamente para o relógio vemos que se tal acontecer, o dia seguinte pode sofrer algumas alterações não tão boas tendo como cartão de visita um atraso.
A insónia da noite não dormida vence.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Ou talvez não.

Não vou pensar hoje.
Não quero viver hoje.
Não tenho como te ver hoje.
Não digo que não, hoje.

Talvez amanhã faça isso...

sábado, 7 de junho de 2008

Ode à escrita

Oh doces palavras...
Dançando suavemente na ponta de uma pena, ao som da vontade do escritor.
Dançam, num baile infinito de avanços e recuos, como uma pequena chama trémula que dança apenas para si própria.
Sozinhas, nada são.
Juntas, formam o tudo.
Quantos desabafos já carregaste, por entre as tuas humildes letras?
Quantas alegrias presenciaste?
Quantas lágrimas deitaste,
Eterna companheira?
Leal confidente,
Presente nos momentos mais difíceis.
Nunca te cansas, nunca te queixas;
Nunca foges, nunca desistes de nós.
Porque continua a haver gente que não te conhece?
Porque continua a haver gente que não conhece o éter do mundo mundano?
Porque te continuam a pisar, a desrespeitar, a descaracterizar, a destruir?
Quem sóis vós, pobres ignorantes,
Cegos por algo que não o brilho da vida?
Acordem, e deixem-se cegar.
Apreciem o brilho e deixem a pena movimentar-se.
Ao teu próprio ritmo, pois cada um possui um diferente.
Ao ritmo do teu coração.
E quem és tu, estranha forasteira,
Que parece ser tão indispensável que o próprio ar que nos mantém vivos?
Não sei.
Não completamente.
Ninguém sabe.
Ninguém pode saber.
Talvez seja nisso que reside a sua magia.
No mistério do desconhecido.
Nas descobertas que fazemos, a cada dia que passa.
Nesta infindável aventura que é escrever.
No resplandecer de cada nova palavra formada.
Na arte das raras almas que conseguem trazer ao de cima a sua beleza oculta,
Fazendo a pena dançar sob o seu eterno companheiro,
Como se as palavras lhes brotassem directamente do coração.
Em cada pequena letra que segue a anterior e juntas formam uma palavra, uma frase, um texto.
Uma vida.
E tu permaneces, por entre fios de palavras e vida, eterna e discreta;
Frágil, mas com um porte imponente.
E por entre pedaços de memória e ser tu resistes,
Crescendo a cada palavra escrita,
E lutando para que esta chama não se apague,
E que para sempre alumie o nosso caminho.


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Poema (se é que se pode considerar um poema xD) escrito à duas semanas. Vá, agora em solidariedade, assinem a petição contra o Acordo Ortográfico. ^-^

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Bilhete de Ida e Volta

Se não vou
porque não fui
só não volto a ir se não chegar.

Pressa de viver:
Vontade de ficar.





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Alguém me pontua os três primeiros versos? Queria dizê-los de tantas maneiras...! Qual é a vossa?

Sujeito poético

O lápis, aquele aguçado utensílio.
A alma do escritor, o dedo do artista.
Aquele cujo seu auxílio
Cria mais que o que tenho à vista.

O poeta não é aquilo que é.
É aquilo que escreve.
Tal como o lápis:
È o que o destino lhe serve.

Os poemas, lidos ou reproduzidos
Representam a personagem poética.
O fingir daqueles que se dizem esclarecidos.
O fulgor daqueles que só pensam na estética.

Os poemas são o espelho turvo do costume.
Aquilo que se passa nem sempre se passou.
Aquilo que se sente nem sempre se sentiu.
Aquilo que se ouve nem sempre se ouviu.

O poeta: uma criatura misteriosa…
É um ser que finge e que sente fingido.
É um ser que sente e que finge o sentido.
Não é realmente o que é: é parecido.