Era Dezembro. Estava uma noite fria, típica daquele mês. Uma rapariga nos seus 15 anos olhava através de uma janela. Tinha cabelos castanhos, que balouçavam levemente ao sabor do vento frio daquela estação. Era alta e elegante, e usava umas calças pretas com uma camisola da mesma cor. Preta, como a sua alma. Os seus olhos eram azuis, um azul pálido, que transmitia tristeza e mágoa. O seu olhar estava distante, perdido em pensamentos, mas sempre com aquele tom de tristeza que lhe era habitual. Subitamente, um arrepio percorreu o seu corpo. Estava frio. Mas nem ela sabia ao certo se esse frio se devia à noite gélida ou apenas ao seu coração, que se tornara frio e insensível, como um pedaço de gelo. Mas nem sempre fora assim... Com este pensamento a sua mente voou uma vez mais para sua infância, enquanto o seu olhar se tornava melancólico. Nem sempre fora assim... Por mais incrível que lhe parecesse naquele momento, ela já fora feliz. Num tempo que lhe parecia nunca ter existido, ela já fora capaz de rir, de sorrir, de correr, de saltar e de brincar. Ela já fora capaz de ser feliz. Como era possível que tudo tivesse mudado tanto... Em apenas um segundo? Como puderam acabar três vidas numa questão de segundos? Sim, três vidas. Pois a dela acabara também. De que valia a pena viver, se tudo o que a fazia feliz lhe fora negado? Tudo por causa daquele estúpido acidente...
"Porque tinham de levar para longe de mim as pessoas que eu mais amava? As únicas pessoas que me faziam feliz, que me faziam acordar todas as manhãs com um sorriso no rosto, as únicas pessoas que me davam vontade de viver? Porque? Porque não me levaram com eles? Porque me deixaram viver? Foi um milagre eu ter sobrevivido, como toda a gente faz questão de me recordar. Para mim não foi milagre nenhum... A minha vida não é nenhum milagre mas sim um pesadelo. De que vale a pena viver, senão posso ser feliz? É como se só o meu corpo continuasse vivo... Apenas a embalagem continua, pois todo o seu conteúdo foi-lhe retirado. E ela continua, vazia, perdida, sem sentido... Mas continua viva. Qual é sentido de tudo isto? Porque não posso ser feliz ao lado de quem mais amo? Porque tenho de continuar a viver, numa busca inútil pela felicidade que tenho a certeza de que nunca vou recuperar? Qual é a razão para eu continuar aqui? Ainda não a descobri... E tenho a certeza que nunca a encontrarei... Porque não existe."
Uma lágrima solitária deslizou pelo seu rosto, caindo sobre a sua camisola. Olhou para a cidade à sua frente, adormecida pela luz ténue da noite. Tantas pessoas diferentes, tantas vidas diferentes, tantos sonhos, tantas esperanças, alegrias e tristeza... Tudo aquilo a punha cada vez mais triste e melancólica. Como ela queria poder deitar-se na sua cama, dormir um sonho tranquilo sem pesadelos, sorrir e pensar como era feliz... Não tinha ninguém, estava sozinha. Vivia sozinha, não permitira que ninguém ficasse com ela após o acidente. Ninguém iria substituir os seus pais, fizessem o que fizessem. Não voltaria a amar ninguém. Não podia permitir que voltasse a acontecer o mesmo. Na escola não tinha amigos. Não deixava ninguém aproximar-se dela, nem as suas antigas amigas, que faziam de tudo para tentar que ela voltasse ao normal. Mas ela não o permitia. Não tinha razões que a fizessem querer voltar ao normal, não havia nada a fazer. Apenas... Continuar a sofrer. Em silêncio.
Com um suspiro, desviou o seu olhar da janela e caminhou até à sua cama. Aconchegou-se dentro dos lençóis, mas continuava a sentir frio. Contudo, isso era uma coisa que para ela se tornara habitual. Fechou os olhos, pedindo com todas forças a Deus que, se ele existia, por favor lhe desse uma noite descansada. Uma, apenas uma noite, em que ela pudesse dormir em paz, sem pesadelos. Com um novo suspiro, deixou-se levar para o mundo dos sonhos... Ou dos pesadelos.
Um leve ruído despertou-a. Um pouco confusa, ergueu-se da cama e ficou à escuta. Umas pancadas suaves na janela ouviam-se no silêncio da noite. Levantou-se e caminhou para a janela. Pequenas pedrinhas atiradas por alguém que ela não conseguia ver batiam levemente contra a sua janela. Um pouco a medo, abriu a janela e viu uma rapariga que parecia ter 20 anos sentada num ramo da árvore que fora plantada em frente à sua janela. Tinha um cabelo castanho que lhe chegava ao fundo das costas, um corpo elegante de alguém que já não é adolescente. Contudo, o seu rosto parecia o de uma pequena menina, uma menina que ainda não crescera, uma menina inocente e feliz. Os seus olhos azuis pálidos brilhavam à luz do candeeiro da rua. Ela conhecia aquele rosto de algum lado. De repente, despertou daquela ilusão provocada pela visão daquela rapariga que era estranhamente familiar.
- Quem és tu? Que estás aí a fazer? Como entraste aqui em casa? - Perguntou ela, na maneira fria que lhe era tão característica.
Porém, não obteve nenhuma resposta. A estranha rapariga limitou-se a sorrir-lhe e deixou-se cair da árvore, aterrando no seu jardim. Para sua surpresa, foi dominada por um sentimento que à muito não sentia....Curiosidade. Queria saber quem era aquela estranha rapariga. Deixou-se dominar por aquele sentimento, que para ela era quase novo. Apenas se deteve para ir buscar um casaco e desceu as escadas a correr, saindo pela porta de casa. A rapariga estava a sua espera, encontrada ao muro da casa, sorrindo para ela. Ela caminhou até à rapariga, detendo-se à sua frente. Pela primeira vez desde muito tempo ela sentia... Não o queria admitir, mas pela primeira vez desde o acidente sentia-se viva novamente. O frio que ela sentia começou a desaparecer. Espantada, virou-se de novo para a rapariga.
- Quem és? Que queres? Como entraste aqui em casa?
- Há perguntas que não precisam de ser respondidas. A magia está na incompreensão das coisas... Quando conheces totalmente uma coisa, ela perde completamente o seu mistério. Há coisas que não foram feitas para ser compreendidas. É nesse mistério que reside a sua magia. - Respondeu calmamente a rapariga, sorrindo ainda mais.
Ela sentiu a sua curiosidade aumentar cada vez mais. Até a sua voz lhe era familiar. E o que ela dizia fazia sentido, apesar de ter deixado à muito de acreditar em magia. O seu fascínio por aquela estranha rapariga aumentava cada vez mais. Esfregou os olhos, pensando se aquilo tudo não seria apenas um sonho. Quando os abriu, a misteriosa rapariga não estava lá mais. Rindo por dentro, perguntou-se como pudera ser tão parva ao ponto de acreditar naquilo. Contudo, um sentimento de desilusão e desconsolo espalhava-se no seu corpo à medida que o frio habitual regressava. Pela primeira vez, ela tinha acreditado que não estava sozinha. Pela primeira vez, um leve sentimento de esperança foi sentido. Contudo, não passara de um sonho. Ou pesadelo....
Suspirando, virou-se para entrar casa. Dois olhos azuis pálidos acompanhados de um sorriso fixavam-na. Um grito cortou a noite.
-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
- Desculpa desculpa desculpa! Não queria assustar-te! - A rapariga correu para ela. - Tem calma! Foi só um susto! Desculpa... Não devia ter desaparecido assim.
- Assustaste-me! - Ela pôs a mão no seu peito ofegante, enquanto o seu coração batia descontroladamente.
- Por momentos perguntaste a ti mesmo se eu não era apenas um produto da tua imaginação não foi?
- Eu... Não... Como...? - Balbuciou ela. Aquele olhar enigmático parecia ler-lhe os pensamentos.
A rapariga apenas sorriu e pegou-lhe na mão.
- Vem.
Foi tudo o que ela disse. E ela foi. Ela puxou-a ao longo da cidade, até que chegaram a um pequeno descampado nos limites da cidade, onde passava um pequeno riacho. Estava uma noite estrelada e naquele sítio via-se um céu completamente limpo, polvilhado de pequenas estrelas como se fossem pequenos grãos de areia. Ela parou, olhando espantada para o céu estrelado. Como era bonito... Nunca imaginara que naquela cidade houvesse um sítio tão bonito como aquele. Deitou-se sobre a relva, e ficou ali a apreciar aquela beleza que ela tinha desprezado durante todos aqueles anos, demasiado concentrada no seu próprio sofrimento. As estrelas pareciam sorrir para ela, aconchegando-a e fazendo-a sentir... Feliz. Sim, pela primeira vez ela sentia-se feliz. E tudo graças àquela misteriosa rapariga, que lhe parecia tão familiar. Levantou-se e abraçou os próprios joelhos. Os pirilampos dançavam sobre o pequeno riacho, reflectindo a sua luz nas águas calmas. Ela observava aquele espectáculo maravilhoso, sentindo pela primeira vez que não estava sozinha. Espantada, sentiu os seus lábios subirem formando um sorriso. Um sorriso! Algo que ela pensava que tinha morrido também no dia do acidente. No dia em que... Sentiu a sua raiva voltar de novo. Porque apesar de toda essa felicidade que sentia sabia que amanha quando acordasse ia continuar sozinha... E nada ia mudar isso. Uma lágrima caiu pelo seu rosto. A rapariga, que até aí tinha estado deitada ao seu lado, levantou-se também. Estendeu a sua mão para a lágrima, tentando limpá-la.
- Pára! - disse ela, afastando bruscamente a mão da rapariga.
- O que é que se passa?
- Tu não percebes... Tu não percebes nada! Tudo isto é muito bonito... Mas não muda nada! Eu continuo sozinha, completamente sozinha! As duas pessoas que eu mais amava abandonaram-me... Já não tenho ninguém! Porque é que eu não morri com eles? Porque é que tenho que passar por este sofrimento todo? Não faz mais sentido viver, não quero, não quero! Não quero... E não venhas com essa história de que eles foram para um sitio melhor, porque eu não tenho 4 anos! Eles estavam muito bem aqui, não precisavam de ir para nenhum sítio! Nós éramos tão felizes... Porque é que essa felicidade teve de ser destruída? Porque? Que tipo de Deus é este que destrói a felicidade de uma família?! Eles eram a minha vida... E agora ela acabou... Não há nada a fazer, nada que se possa mudar... Eu já me habituei a isso... Por isso não me faças sofrer mais! Eu sei que isto tudo é apenas uma ilusão e que amanha vai voltar tudo ao mesmo...
Dito isto, ela começou a chorar. A rapariga apenas passou os braços à volta dos seus ombros e encostou a sua cabeça ao peito dela, deixando-a chorar à vontade. E começou-lhe a fazer ao ouvido, à medida que o choro dela ia acalmando.
- Sabes... Gostava que tivesses quatro anos... Pois aí podia dizer-te apenas que tudo ia ficar bem e que não era preciso teres medo. Mas nem tu tens quatro anos nem eu sou mentirosa. Eu sou tanto como tu, apenas mais uma peça de xadrez neste tabuleiro gigante que é o universo. Não sei os planos de Deus, ou porque é que Ele faz o que faz. Ninguém sabe. Mas continuam acreditar n'Ele. Isso chama-se Fé. A fé é um algo incerto, pois tu nunca sabes se aquilo em que acreditas é realmente verdadeiro. Apenas... Acreditas. E essa fé pode ser incerta, mas dá-te força para continuares, não importa os abanões que leves. Porque aconteça o que acontecer, tu tens algo em que acreditas. E isso faz-te perceber que não estás sozinha. Porque eu não posso mudar nada. Adorava poder fazê-lo mas não posso. Ninguém pode... Excepto tu. Tu és a única pessoa que o pode fazer. Porque se tu acreditares tudo será possível. Basta acreditares. E acredita que não é apenas uma daquelas frases feitas, para te consolar. É a realidade. Tu podes não acreditar em nada do que eu te estou a dizer. Mas um dia... Tu irás perceber.
Ela não respondeu. Apenas sorriu. A rapariga sorriu também, entendendo aquilo como um "sim". Levou a mão ao bolso e tirou um colar que entregou-lhe. Ela ficou pálida. Aquele colar... Ela conhecia aquele colar... Ou um muito parecido. Ela um colar em forma de gota, uma pequena gota brilhante. Era o colar que a sua mão usava sempre, dia e noite, nunca o tirava. Era o colar que ela sempre admirara e sempre desejara secretamente que um dia pudesse ser dela.
- Mas.... Como?... Não pode...
A rapariga apenas sorriu enigmaticamente. Ela sorriu também a apertou firmemente o colar na sua mão fechada. Agora sim, ela podia ser feliz. A rapariga levantou-se e começou a caminhar pelo caminho que ia dar à cidade.
- Espera! Onde vais? Alguma vez voltarei a ver-te?
A rapariga respondeu-lhe com um sorriso. Com aquele sorriso enigmático que tanto a fascinava.
- Eu faço parte de ti. Por isso enquanto acreditares em ti e em mim, eu vou sempre existir em ti.
Ela não percebeu muito bem aquela frase. Mas como tudo aquilo lhe parecia tão irreal que apenas insistiu:
- Nem sequer sei o teu nome....
- Kaijin. O meu nome é Kaijin.
E dizendo estas palavras a rapariga foi engolida pela noite e desapareceu.
Um mês se passou desde aquela estranha noite. Tudo aquilo lhe parecia apenas um sonho, mas um certo colar em forma de gota que ela usava dia e noite, fazia com que ela não tivesse mais remédio senão acreditar. Nunca conseguiu perceber o que se passara naquela noite... Nem queria. Como uma certa pessoa uma vez lhe tinha dito "A magia das coisas reside na sua incompreensão". Só gostava de saber o que ela queria dizer com o "fazer parte" dela. Talvez nunca viesse a compreender aquela frase. O que lhe importava é que agora ela era feliz. E não estava mais sozinha. De repente, uma voz ofegante arrancou-a dos seus pensamentos.
- Yuki! Espera por mim!
Era Mizuno, uma das suas melhores amigas. Desde aquele dia, a sua atitude mudara completamente. Deixara de ser fria e solitária e voltara a ser aquela menina alegre e carinhosa que era antes do acidente. Abrandou o passo, para que Mizuno a conseguisse apanhar.
- Bom dia, Mizuno.
- Bom dia, Yuki.
- Sabes o que eu descobri? Há um cabeleireiro no centro da cidade que consegue prever como tu vais ficar daqui a uns anos, usando um programa de computador! Queres vir lá comigo depois das aulas?
- Claro! Quero ver como vou ser quando for muito velhinha – disse Yuki rindo.
Depois das aulas, o grupo de raparigas dirigiu-se ao cabeleireiro. Estavam entusiasmadas com aquilo, era falado em toda a cidade. Entraram no cabeleireiro e sentaram-se à espera da sua vez.
Uma cabeleireira veio ter com elas.
- E quem vai ser a primeira?
- Pode ser a Yuki.
- Por mim tudo bem – disse outra rapariga.
- Concordo – exclamou outra.
- Eu? Está bem... – respondeu ela, levantando-se.
Yuki seguiu a cabeleireira até a uma pequena sala na parte de trás do cabeleireiro, onde estavam vários computadores. Yuki entregou uma foto sua que foi introduzida no computador. Fizeram lhe várias perguntas sobre se gostaria de mudar alguma coisa, com quantos anos queria, etc. Passado algum tempo chamaram-na novamente para ver o resultado. Quando ela olhou para o computador sentiu as suas pernas a fraquezar. Porque a rapariga que ali estava não era ela. Mas sim Kaijin. E finalmente, todas as peças daquele puzzle se encaixaram, e tudo fez sentido. E sorriu. O futuro deixara de a assustar. Porque ela já o vira. E gostara.
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Este é um dos meus textos antigos, que surgiu a partir de um desafio: Criar um texto a partir de uma imagem ^-^. Peço desculpa por ser enorme, mas só gosto de fazer ou histórias compridas ou poemas xD.