terça-feira, 15 de julho de 2008

Obrigada

Seus olhos sábios,
De quem ensina uma lição;
Ilustram uma obra prima
De corpo, alma e coração.

Seu cabelo, já tão fino,
Branco como a neve mais pura.
Sua cabeça, já tão desgastada,
Mas ainda encerrando tanta cultura!

Suas mãos enrrugadas,
Nunca escasseam de vida:
Tricô, cozinha,
Jardinagem e arrumos,
Provando que a velhice pode ser tão colorida!

Sua cara, por vezes severa,
Mas sempre armada com um sorriso.
E o seu doce riso,
Escutá-lo para sempre, quem me dera!

Foi segunda mão, foi tia,
Foi mestre, foi professora,
Foi exemplo e foi guia.

Ensinou-me a ser forte e lutadora.
Ensinou-me principios e valores
E o nome de todas as cores.

Pegou em mim pequenina,
Frágil como uma rosa.
E com ajuda fez de mim,
Alguém que escreve prosa.

Por ti, querida tia,
Guardo este enorme sentimento.
E aqui fica registado
O meu eterno agradecimento.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Noite em Branco

A noite em branco. Sombria e tumultuosa noite que, por sua vez, desperta em nós não só o sono como também acode às nossas preocupações, aos nossos medos, aos nossos fantasmas de consciência. Por ventura, este tipo de descanso espiritual não tem só partes más: podemos reaproveitar o nosso tempo em que nos contorcemos na cama procurando com afinco a melhor posição para pegar o sono pensando na vida, nos amigos, tentando libertar de nós tudo o que é bom, mas que com azar, atrai o que não é tão bom.
Vigorosa a noite de descanso é. Odiosa é aquela em que a insónia nos abate de tal modo que em certa parte culpamo-nos a nós mesmos o facto de não conseguir dormir. O receio de acordar tarde e outrora atrasados na manhã seguinte abala-nos ainda mais.
A noite em branco. O assalto do passado, do presente e, quiçá, do futuro que para vir é inevitável. Num instante a vida parece um sonho eterno. O planeta deixa a sua órbita em torno do Sol e concentra-se em nós.
Por momentos, pensamos em voltar a tentar adormecer mas, olhando novamente para o relógio vemos que se tal acontecer, o dia seguinte pode sofrer algumas alterações não tão boas tendo como cartão de visita um atraso.
A insónia da noite não dormida vence.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Ou talvez não.

Não vou pensar hoje.
Não quero viver hoje.
Não tenho como te ver hoje.
Não digo que não, hoje.

Talvez amanhã faça isso...

sábado, 7 de junho de 2008

Ode à escrita

Oh doces palavras...
Dançando suavemente na ponta de uma pena, ao som da vontade do escritor.
Dançam, num baile infinito de avanços e recuos, como uma pequena chama trémula que dança apenas para si própria.
Sozinhas, nada são.
Juntas, formam o tudo.
Quantos desabafos já carregaste, por entre as tuas humildes letras?
Quantas alegrias presenciaste?
Quantas lágrimas deitaste,
Eterna companheira?
Leal confidente,
Presente nos momentos mais difíceis.
Nunca te cansas, nunca te queixas;
Nunca foges, nunca desistes de nós.
Porque continua a haver gente que não te conhece?
Porque continua a haver gente que não conhece o éter do mundo mundano?
Porque te continuam a pisar, a desrespeitar, a descaracterizar, a destruir?
Quem sóis vós, pobres ignorantes,
Cegos por algo que não o brilho da vida?
Acordem, e deixem-se cegar.
Apreciem o brilho e deixem a pena movimentar-se.
Ao teu próprio ritmo, pois cada um possui um diferente.
Ao ritmo do teu coração.
E quem és tu, estranha forasteira,
Que parece ser tão indispensável que o próprio ar que nos mantém vivos?
Não sei.
Não completamente.
Ninguém sabe.
Ninguém pode saber.
Talvez seja nisso que reside a sua magia.
No mistério do desconhecido.
Nas descobertas que fazemos, a cada dia que passa.
Nesta infindável aventura que é escrever.
No resplandecer de cada nova palavra formada.
Na arte das raras almas que conseguem trazer ao de cima a sua beleza oculta,
Fazendo a pena dançar sob o seu eterno companheiro,
Como se as palavras lhes brotassem directamente do coração.
Em cada pequena letra que segue a anterior e juntas formam uma palavra, uma frase, um texto.
Uma vida.
E tu permaneces, por entre fios de palavras e vida, eterna e discreta;
Frágil, mas com um porte imponente.
E por entre pedaços de memória e ser tu resistes,
Crescendo a cada palavra escrita,
E lutando para que esta chama não se apague,
E que para sempre alumie o nosso caminho.


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Poema (se é que se pode considerar um poema xD) escrito à duas semanas. Vá, agora em solidariedade, assinem a petição contra o Acordo Ortográfico. ^-^

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Bilhete de Ida e Volta

Se não vou
porque não fui
só não volto a ir se não chegar.

Pressa de viver:
Vontade de ficar.





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Alguém me pontua os três primeiros versos? Queria dizê-los de tantas maneiras...! Qual é a vossa?

Sujeito poético

O lápis, aquele aguçado utensílio.
A alma do escritor, o dedo do artista.
Aquele cujo seu auxílio
Cria mais que o que tenho à vista.

O poeta não é aquilo que é.
É aquilo que escreve.
Tal como o lápis:
È o que o destino lhe serve.

Os poemas, lidos ou reproduzidos
Representam a personagem poética.
O fingir daqueles que se dizem esclarecidos.
O fulgor daqueles que só pensam na estética.

Os poemas são o espelho turvo do costume.
Aquilo que se passa nem sempre se passou.
Aquilo que se sente nem sempre se sentiu.
Aquilo que se ouve nem sempre se ouviu.

O poeta: uma criatura misteriosa…
É um ser que finge e que sente fingido.
É um ser que sente e que finge o sentido.
Não é realmente o que é: é parecido.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Doce melancolia do habitual


7h00 da manhã.

Um som contínuo anuncia o começo de um novo dia, arrancando-me do mundo dos sonhos. Continuo de olhos fechados, esperando que o barulho pare. Contudo, ele continua, cada vez mais alto. Dando-me por vencida levanto-me e carrego no botão que faz parar aquele som irritante. E volto a dormir. 5 minutos depois, a minha curta paz é de novo interrompida pelo som do despertador.
Desisto. Levanto-me, de olhos ainda meio fechados, perguntando a mim mesma porque não me deitei mais cedo na noite anterior. Noite, como quem diz, já era mais madrugada que noite. Depois resmungo contra o facto de as aulas de manhã cedo existirem. Mas como isso não muda nada e continuo a ter de ir para as aulas nesse dia, dirijo-me para a casa de banho, com esperanças que um banho consiga realizar a tarefa em que o despertador fracassou... Acordar-me.

Já de banho tomado e um pouco mais desperta, dirijo-me para o meu quarto a fim de me cobrir com alguma roupa. Em seguida dá-se a habitual batalha contra a roupa, que nunca parece estar do meu agrado, embora seja exactamente igual à roupa que eu escolhi na noite anterior e que me agradara nessa altura. Não gosto. Tiro outra roupa do armário. Continuo a não gostar. Um pensamento de raiva contra o cabelo começa a aparecer. Resmungo contra o facto dele ter acordado contra a minha vontade. Uma leve irritação começa a formar-se. Entretanto, a roupa começa a amontoar-se em cima da cama, sem ser encontrada uma candidata. Um grito de guerra é ouvido, vindo da divisão ao lado, dizendo-me que se não me despachar vou chegar atrasada. Suspirando, dou-me novamente por vencida e agarro a roupa que menos me desagrada. Em seguida corro para a casa de banho e tento, inutilmente, dar ao cabelo um aspecto que me agrade minimamente. Depois de varias tentativas frustradas dou o seu aspecto por aceitável e corro novamente para o meu quarto. A pasta que já devia estar feita desde o dia anterior é cheia com livros e cadernos, correndo o risco de serem os cadernos e livros errados, mas não me importando muito com isso. Pelo menos, importando-me mais com o relógio que anunciava em números bem grandes que ou me despachava ou ia chegar atrasada.

Desço as escadas de 3 em 3 degraus e bebo o leite em 5 segundos. Corro novamente escadas acima e só tenho tempo de pegar na mochila e no casaco antes de continuar a correr em direcção ao carro, esperando ainda ir a tempo. Olho para o relógio e um alívio enche-me o peito. Ainda faltam vinte minutos. Uma coisa é certa, esta correria executou na perfeição a tarefa que o despertador e o banho não conseguiram por completo. Recupero o fôlego no banco do carro, enquanto é feita a habitual viagem de 5 minutos, em direcção ao colégio.

Passados 5 minutos, cá estamos nós. À porta do colégio. Olho para ele e não consigo deixar de sorrir, apesar de todo o nervosismo e irritação matinal que se haviam formado devido aos acontecimentos anteriores. A entrada do colégio, tão imponente e ao mesmo tempo tão desgastada pelos seus anos de vida e de utilização... E claro, pela teimosia da direcção que se recusa a fazer obras e tornar aquele colégio num sítio em condições. Continuo a observar aquela fachada... Aquele edifício tão velho e deteriorado, mas ao mesmo tempo tão... Acolhedor. Apesar do seu aspecto frágil e danificado, emanava uma aura de segurança e felicidade, uma sensação de reconforto. Por entre o nevoeiro de uma fria manhã de Maio, ergue-se com um ar de mistério, de quem encerra dentro de si uma vida... Um ar de quem testemunhou tantas vidas, tantos segredos, tantas alegrias e tristezas, desilusões, amores e desamores... Amizades. Quantos momentos aquelas paredes frias e corroídas não assistiram, quantos sentimentos não ficaram embebidos naquelas estruturam que à primeira vista parece apenas um amontoado de pedras e tijolos. O céu encoberto, deixando alguns tímidos raios de sol transparecer por entre o tecto de nuvens que se formava por cima de mim, dá-lhe um ar quase... Mágico. Talvez seja reflexo de todos os momentos maravilhosos que vivi dentro destas quatro paredes.

Com um sorriso, volto à realidade e percebo que estive cinco minutos observando o colégio, quase que hipnotizada. Toda as más sensações geradas previamente naquela manhã agora não passavam de simples memórias. Sorrio mais uma vez ao aperceber-me de tal facto e empurro a pesada porta do colégio, sabendo que ia ser a primeira vez de incontáveis vezes que iria fazer aquele gesto naquele dia. Ah... Doce habitual.

Subo as escadas e passo pelo corredor, descendo de seguida as escadas que me levam ao recreio. Como de habitual, cumprimento quem lá está. Acabo de descer as escadas e pouso a mochila num amontoado de mochilas que se encontra ao fundo das escadas, encostadas à parede, embora saiba perfeitamente que é proibido deixar as mochilas naquele local. Em seguida vejo o André, que como de costume está sentado nos bancos com a cabeça pousada sobre os braços, com ar de quem acha que aulas à segunda-feira de manhã deviam ser proibidas. Os phones estão colocados nos ouvidos, ouvindo música como habitual. Aproximo-me dele e assusto-o. Ele olha para mim com cara de sonâmbulo, como se dissesse que se não estivesse com demasiado sono para tal matava-me. Rio-me da cara dele e deixo-o dormir em paz. Dirijo-me para a sala (se é que se pode chamar de sala) seguinte, que apenas se destina a possuir cabides, mas que é um dos sítios favoritos de toda a gente. Deitada no banco está a Cátia, encostada à parede fria, com um casaco por cima dela, ouvindo música. A cara dela apresenta a típica expressão "Não-me-toques-ou-arriscas-te-a-morrer". Suspirando, pergunto a mim mesma o que se terá passado desta vez. Aproximo-me dela e pergunto-lhe o que se passa.

Depois de conversarmos um pouco, atravesso a porta que dá para o recreio. Sentadas nos bancos de pedra, vejo a Mafalda e a Catarina. Sorrio e aproximo-me delas, sendo abraçada pela Mafalda. Aquele abraço... Que parecia fazer desaparecer tudo que pudesse estar mal no mundo. Abraço-a de volta, desejando nunca perder estes abraços, por muito tempo que se passasse. Estes abraços e principalmente a ela. A ela e todos que faziam daquele colégio a minha segunda casa. Aqueles que me faziam ter vontade de ir para a escola a uma segunda-feira de manhã. Aqueles que me faziam feliz. Desejei que isto nunca acabasse, por muito que este ano estivesse inevitavelmente a acabar. Desejei que esta sensação de companhia, de segurança, de felicidade e de amizade fosse interminável. Esta sensação de doce e reconfortante habitual. Separo-me dela e sorrio-lhe, dando um beijo à Catarina. Sento-me ao seu lado e falamos sobre o que fizemos no fim-de-semana, enquanto ouço as suas peripécias do costume. Sinto-me tão bem ali. Sinto-me segura, protegida, feliz. De repente chega a Cátia, já completamente recuperada e no seu estado habitual de energia pura. Põe-me a ouvir Nirvana, enquanto cantamos as duas e fazemos as palhaçadas usuais. Ah... Bendita rotina.

De repente a campainha toca, anunciando o final da felicidade e o inicio do estudo. Não tendo outra hipótese, arrumamos as coisas e dirigimo-nos às escadas que levam à sala. O André ainda continua no mesmo sítio, estremunhado por ter sido acordado subitamente pela campainha enquanto a Mafalda o puxa em direcção à sala. Chegamos à porta da sala e esperamos que a professora chegue e nos abra a porta. Entretanto cumprimento o resto da turma e discuto com a Joana e o Manel os desenhos animados do fim-de-semana ou o anime que descobrimos. A professora chega e é com relutância que entramos na sala. Sento-me ao lado da Isabel e sorrio, começando a conversa costumeira de como correu o fim-de-semana, enquanto o sumário é escrito no caderno. Felizmente acertei nos livros. Em seguida a professora pede para abrirmos o livro e estarmos atentos. A primeira ordem é executada com prontidão, a segunda... Apenas por meia dúzia de pessoas que tentam esforçar-se por estar atentos a uma aula de Ciências numa sonolenta segunda-feira de manhã. Olho para a professora e tento ouvir o que diz. Entretanto, vou ouvindo o que me dizem de trás e dos lados também. Ah... Maravilhosa skill que me foi dada, conseguir estar atenta à professora e aos colegas ao mesmo tempo. Não à duvida que dá jeito. Bilhetes escritos em folhas de papel rasgadas à pressa começam a movimentar-se de um lado para o outro da sala. Às vezes servimos de intermediário, outras de receptor. Planos para a semana e para o fim-de-semana, comentários, desabafos, jogos da batalha naval, novidades… Tudo era escrito em pedaços de papel de todos os tamanhos e enviado para o outro lado da sala.

De repente, batidas na porta. Não é preciso adivinhar para saber quem é. A porta é aberta e uma Bárbara sem fôlego e atrapalhada entra na sala, enquanto vai pedindo desculpas à professora, como habitualmente. Trocamos um olhar de cumplicidade, uma cumplicidade que só nós temos. Numa mensagem silenciosa ela diz-me que tem novidades. Entretanto a professora tenta manter a ordem e marca um exercício. O Diogo e companhia começam a confusão habitual lá atrás, forçando a professora a ir lá. Eu e a Isabel dedicamo-nos ao exercício. Acabo-o e viro-me para trás, esperando que a Bárbara me conte a novidade. Conversamos um pouco, por entre a confusão que se gerou na sala. A professora cansa-se da confusão e volta a impor ordem na sala. O resto da aula é passado em silêncio, com alguns murmúrios e alguns bilhetes sobreviventes e mais corajosos.

A campainha toca, anunciando a liberdade... E a confusão geral. Cadeiras a arrastar, mesas a mexer, lápis, borrachas, canetas, livros e cadernos a serem guardados, pessoas a correr para fora da sala. A professora tenta marcar o trabalho de casa, mas em vão. Eu aponto-o no caderno e dirijo-me para a terceira mesa atrás de mim, onde fica a Bárbara. Pegamos nas coisas e reunimo-nos à Catia e à Catarina. Descemos as escadas e entregamos o cartão. Como de costume esqueci-me do meu. Uma alma caridosa chamada Lena lá me deixa sair, com o aviso de que esta será a ultima vez. Agradeço e desço as escadas a correr, abrindo a porta e juntando-me a elas que me esperam lá fora. Encaminhamo-nos para o "Sérgio". Entramos e fazemos os pedidos habituais. Para mim a minha amada torrada e para a Bárbara a tosta-mista cravada. Acabamos de comer e dirigimo-nos para a casa de banho, onde se dá a destruição total desta. Eu tento lavar o aparelho, enquanto a Cátia faz o mesmo, só que sujando o lavatório todo de pasta de dentes, dizendo que é o Monstro da Boca branca. Eu rio-me, acabando por ficar como ela, com a boca toda branca. Alguém bate à porta. Ouve-se um grito a perguntar o que raio era aquela confusão. Só podia ser a Raice. Limpamos a confusão toda e saímos da casa de banho, voltando ao colégio.

Mais uma aula passada da mesma maneira. História. Mais interessante mas ainda assim a segunda-feira de manhã continua a fazer surtir efeito. A aula passa e é hora de comer. Vou para casa dos meus tios com a Bárbara, conversando o caminho todo. Ah, como é bom conversar com a minha sakura-chan... Esta sensação de estar completa. Almoço e leio um pouco. Também ouço música. Pouco tempo depois a Bárbara bate à porta. Desce e encaminhamo-nos para a Lan, onde nos divertimos a jogar CS. Como são bons estes momentos entre amigos. E principalmente, morrer, que era o mais habitual. As horas passam a voar e é tempo de ir para não chegar atrasados. As aulas de tarde passam igualmente a voar. O dia acaba e a noite chega. Alguns ficam no colégio até tarde, outros vão logo embora. Despedimo-nos, com vontade que o dia não acabe e que o amanhã chegue depressa.

Nos corações fica o sentimento de alegria e felicidade por um dia tão bom com umas pessoas tão maravilhosas e já uma ponta de saudade. Um sentimento de melancolia e de querer mais apodera-se de nós. Separamo-nos, temporariamente, desejando que esta rotina nunca acabe e por mais tempo que passe , no dia a seguir acordemos e comecemos esta doce rotina de novo.

Ah... Esta doce melancolia do habitual... Este sentimento que guardo desde que nos separamos... E espero nunca perder.

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Texto escrito algures no Verão de 2007, dedicado à minha antiga turma. Peço desculpa por mais uma vez ser enorme. ^-^''

quinta-feira, 22 de maio de 2008

As Nuvens

Decerto que já alguma vez se depararam a olhar para o céu, analisando o contorno das nuvens desenhadas no céu com formas palpáveis e bem definidas. Decerto que também já compararam esses mesmos contornos aos de objectos ou animais, até mesmo de pessoas. Pois bem meu caro leitor, depois da revelação que o Pai Natal não existe e que o coelho da Páscoa não só não põe ovos como as galinhas (mas maiores e de chocolate) e também nos desfaz o coração pela sua injusta inexistência, esta é a maior delas todas: aquelas formas não passam de nuvens. Mero vapor de água que vagueia pelo céu, gozando connosco, não sabendo onde ou quando jorrar o seu conteúdo sobre nós. Talvez seja por isso que se “disfarça” com formas até minimamente apelativas (ou não) de maneira a que até lhes achemos alguma piada.

Também sempre há aqueles amantes de nuvens que naturalmente as vêem com uma “pica” imensa, ou porque elas são brancas ou cinzentas e parecem suaves, ou porque até fazem bom contraste com o céu azul… Meus caros amantes de nuvens, também tenho uma revelação para vós que me estão a ler: as nuvens não são fofas, muito pelo contrário: têm a capacidade de vos descarregar uma fracção de energia eléctrica pelo sistema nervoso em que só não se transformam em cinzas devido à permanência de leis da Física que não o permitam.

Por muito que as nuvens se possam esforçar, nunca conseguirão alcançar um lugar no pódio na magnificência da Criação! E por muito que o Homem se esforce, nunca há-de compreender a verdadeira essência das coisas, enquanto não se abstrair da sua aparência visual ou da sua interveniência no quotidiano do presente. O Homem não é puro, as nuvens quiçá.

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De repente tive uma enorme vontade de trabalhar, por isso decidi escrever algo do tema mais absurdo e imediato que me surgiu sem fugir muito para o randomness mode. Espero que não seja demasiado repescado.

Sentimento Profundo

Venho com este texto desvendar alguma da minha personalidade; um lado que poucos conhecem, pois não me pronuncio muito sobre ele. Não vou dizer o porquê de o ter escrito, porque é algo pessoal que não quero revelar; talvez um dia mais tarde… É sobre os sentimentos mais profundos das pessoas, sentimentos que tenho e que penso que vocês também terão. São sentimentos que um dia nos fizeram acreditar em algo, fizeram-nos sentir maravilhosamente bem, mas que hoje em dia estão adormecidos dentro de nós. Nunca hão-de morrer, tal o seu significado para nós. São algo que nos lembramos e que nesses momentos nos tornam nostálgicos e nos levam a fazer uma regressão temporal de tal modo real que por vezes nos fazem ouvir palavras, sentir cheiros, arrepiar a pele. São sentimentos que ficam nos confins do nosso coração enterrados. Foram bons em tempos e, de repente, tornam-se no nosso pior pesadelo e não desaparecem. Fazem-nos soltar lágrimas de raiva e de revolta, pois não sabemos os porquês das reviravoltas que estes sentimentos tiveram nas nossas vidas. Eu próprio nunca irei perceber como algo tão bom se tornou em algo tão amargo. Porquê??? Saiam de mim, penso eu com todas as minhas forças, mas nada acontece. Irão manter-se para sempre, mesmo que muito adormecidos e escondidos à espera de um momento para saltar de novo para as nossas cabeças…

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Não és tudo

Hoje lembrei-me e espero não me esquecer. Fora de quaisquer exageros românticos ou obsessões lamechas, não és a minha vida, não és a sua razão de ser e nunca serás. Não quero nem posso depender de ti assim. A vida vai muito além do amor que sinto por ti, os melhores momentos nem sempre são contigo e os meus objectivos de vida não passam somente por te conquistar. Lamento nem sempre conseguir limitar-te a seres parte do meu mundo, lamento nem sempre conseguir parar de te viver, não depende só de mim, depende da minha falta de força, da minha fraca resistência e da minha excessiva entrega àqueles que amo. És importante, não posso negar, contestar ou difamar: mas fica por aí, não podes tornar-te exclusiva ou indispensável, pois ambos sabemos que a constância não é o teu forte, e a envolvência não é o meu fraco, por isso estabeleço hoje e aqui, limites, barreiras e distâncias. Não posso continuar a viver-te incansavelmente, a controlar a tua atenção e a contar os segundos que demoras a prestar-ma, não posso entregar assim a minha felicidade a quem nem sempre cuida bem dela, não posso continuar a girar a minha vida em tua volta, não posso mais orbitar em volta da tua presença, não posso viver tendo-te como minha base e não posso apoiar todas as minhas esperanças e aspirações em ti. É uma responsabilidade que o teu amor jamais cobrirá, e que tu alguma vez mereças ter. Por isso aprendo tarde, pior que cedo, melhor que nunca que tenho de criar um espaço meu, longe de ti, longe do teu sorriso, dos teus beijos, do teu abraço e de tudo aquilo que julgo poder pagar minimamente o que te quero dar incondicionalmente. Tens definitivamente de descair do pedestal onde eu te coloquei, aos poucos, e eu tenho de perder esta dependência que nutro por ti e que me controla cada vez mais dia após dia. Não posso querer acordar só para te ver, não posso querer dormir só para te sonhar. Não posso nem quero. Não mereces tal tipo de atenção, não só por não a retribuíres mas também por não a valorizares como eu preciso. Não, não podemos ter aqueles amores loucos, incondicionais e arriscados, porque simplesmente cansei de arriscar sozinho, cansei de dar tudo sozinho e cansei de ter medo de amar também sozinho. Chama-lhe cobardia, denomina-o de complicação, caracteriza-o de apenas imaginação, mas se há algo que sei, é que o amor tem o poder mítico de dobrar personalidades: perfura barreiras, queima friezas, encurta distâncias, ignora diferenças, calca orgulhos, pois então e porque só o meu tem este poder? Porque só eu me derreto, porque só eu cedo, porque só eu me aproximo, porque só eu me dou por completo? Cansado de ser o accionista maioritário, cansado de ser o maior investidor, retiro hoje o que dou a mais, e ensino hoje algo ao amor que sinto por ti: limites e distâncias. Racionalizo o meu sentimento como alguém me disse, dou-lhe regras e tento hoje dominá-lo com a esperança que amanhã o consiga fazer, e tudo para que depois de amanhã não me espete e perca tudo aquilo que te dei e que não soubeste cuidar, tudo aquilo que suportei em ti e que não conseguiste segurar, tudo aquilo que apostei em ti e não fizeste render…

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Outro texto da autoria de André Luz.

Fim

E o rapaz virou costas. Sorriu, e andou. Não sentira mais a dor ou a saudade. Sentira que tinha acabado. Não ousou olhar para trás uma só vez. A chuva caía. Os passos marcavam a despedida. Ela olhou, sentira a saudade, não dele, mas do seu amor, mas nada havia a fazer, restava-lhe o consolo de ter feito o melhor por ele. As lágrimas caiam-lhe e a chuva misturava-se com elas no seu rosto descoberto pelo cabelo que dançava à melodia do vento. Ele partira. Sem ponta de ressentimento ou rancor. Atravessou a rua, adiantou o passo e chegou ao passeio. Sentia-se bem. Livre, aliviado e feliz. Sentira-se a voar. Ouvira as palavras que não ousava sequer pensar; mas estava-lhe grato: ela não teve medo de falar, nem sequer de se abrir. Dissera-lhe tudo como explicado a uma criança. Não o poupara da verdade, não o consolara com a mentira. Não ousara dizer que o amor por ele ainda estava vivo. Não teve coragem de lhe mentir olhos nos olhos. Custou, só ela sabe o quanto, mas estava de consciência tranquila. Uma história sem final feliz. Um amar sem vice-versa. Um querer solteiro. Por muito que ela quisesse, ela sabia que também uma amizade tinha morrido: restava-lhe compreender e aceitar, sem considerar julgar. Por muito que ambos desejassem, o amor jamais iria possibilitar uma amizade que vive da igualdade, que era tudo o que lhes faltava. O rapaz desapareceu por entre a hora de ponta do passar dos carros. A rapariga limpou as lágrimas, respirou fundo e levantou-se. Pôs os óculos sem haver sol, lamentava um perdão sem haver culpa. Naquele momento desejava amar quem o fazia por ela, mas por qualquer razão não era isso que o coração lhe segredava ao ouvido antes de dormir. Não era por ele que o seu coração vibrava, não era por ele que os seus olhos brilhavam. Ele merecia tudo, e nada lhe era dado. Ele amava forte, deixava razões de lado, e nem assim o seu amor encontrava espelho. Ela agora rezava pela felicidade dele acima da sua própria: Tinha certeza que algum dia ele haveria de encontrar alguém melhor que ela, e que lhe soubesse dar o que ela nunca conseguiu retribuir. Entrou para o autocarro. Parou e olhou para a escadaria onde se tinham sentado instantes antes. Verificava de longe se algo ficara abandonado para trás. Percebeu que não. Ambos tinham arrumado as suas coisas: ela tinha pegado na sua pequena carteira, ele na sua pesada mochila. Nada tinha sido deixado para trás. E a porta fechou. O autocarro arrancou. Ela andou e sentou-se no último banco à direita atrás. O autocarro seguiu pela rua, e passou por uns semáforos virados para verde. Ela olhava com nostalgia o mundo lá fora e vira-o à espera do sinal no passeio. Ela olhou-o e ele fez o mesmo a ela. Ele acenou levemente com a cabeça e sorriu. Ela fez o mesmo. Uma lágrima apareceu no canto do olho do rapaz, mas o andar do autocarro não a deixara ver. E o sinal mudou. Ele limpou a pequena lágrima e atravessou. O autocarro já ia longe e ele seguia o seu caminho como ela o fizera. Não voltaram mais a dirigir palavra um ao outro. Ele não tentou mais encontrar o olhar dela. Ela não tentou mais abrir-lhe um sorriso. E assim acabou, e no passado ficou o que o amor não deixou continuar.

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Texto escrito por : André Luz. Devido a ele não ter conta no Gmail, eu publiquei-o ^-^.

domingo, 11 de maio de 2008

Relação em Pretérito Perfeito

Junto a ti, desejei um destino.
Recebi um aceno como resposta.
O tempo observou-nos, com atino.
Era a realidade que sempre quis, exposta.

Minuto a minuto sucedeu,
As horas escorregaram
E, sem pedir licença, tudo cedeu.
O sentido rompeu-se nos que se amaram.

Foi naquele instante sombrio
Que o doce e quente se tornou frio,
Que o agradável se tornou repulsivo,
Que o tudo acabou evasivo.

Foi naquele instante obscuro,
Que o mundo se tornou nocivo,
Que o sol se tornou cativo,
Que o universo caiu no escuro.

O desespero subtil apareceu,
O sofrimento nefasto interveio,
A vontade de viver resumiu-se a um devaneio
Criado pela própria vida que empalideceu.

Tudo se resumiu a um momento.
Àquele ápice que nos trouxe dor,
Vontade de substituir o amor sedento
Pelo ódio capaz de extinguir ardor.

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Nota de autor:
Mais um poema meu concebido na mesma época que o anterior.

domingo, 4 de maio de 2008

Tamashii no Mado

Era Dezembro. Estava uma noite fria, típica daquele mês. Uma rapariga nos seus 15 anos olhava através de uma janela. Tinha cabelos castanhos, que balouçavam levemente ao sabor do vento frio daquela estação. Era alta e elegante, e usava umas calças pretas com uma camisola da mesma cor. Preta, como a sua alma. Os seus olhos eram azuis, um azul pálido, que transmitia tristeza e mágoa. O seu olhar estava distante, perdido em pensamentos, mas sempre com aquele tom de tristeza que lhe era habitual. Subitamente, um arrepio percorreu o seu corpo. Estava frio. Mas nem ela sabia ao certo se esse frio se devia à noite gélida ou apenas ao seu coração, que se tornara frio e insensível, como um pedaço de gelo. Mas nem sempre fora assim... Com este pensamento a sua mente voou uma vez mais para sua infância, enquanto o seu olhar se tornava melancólico. Nem sempre fora assim... Por mais incrível que lhe parecesse naquele momento, ela já fora feliz. Num tempo que lhe parecia nunca ter existido, ela já fora capaz de rir, de sorrir, de correr, de saltar e de brincar. Ela já fora capaz de ser feliz. Como era possível que tudo tivesse mudado tanto... Em apenas um segundo? Como puderam acabar três vidas numa questão de segundos? Sim, três vidas. Pois a dela acabara também. De que valia a pena viver, se tudo o que a fazia feliz lhe fora negado? Tudo por causa daquele estúpido acidente...

"Porque tinham de levar para longe de mim as pessoas que eu mais amava? As únicas pessoas que me faziam feliz, que me faziam acordar todas as manhãs com um sorriso no rosto, as únicas pessoas que me davam vontade de viver? Porque? Porque não me levaram com eles? Porque me deixaram viver? Foi um milagre eu ter sobrevivido, como toda a gente faz questão de me recordar. Para mim não foi milagre nenhum... A minha vida não é nenhum milagre mas sim um pesadelo. De que vale a pena viver, senão posso ser feliz? É como se só o meu corpo continuasse vivo... Apenas a embalagem continua, pois todo o seu conteúdo foi-lhe retirado. E ela continua, vazia, perdida, sem sentido... Mas continua viva. Qual é sentido de tudo isto? Porque não posso ser feliz ao lado de quem mais amo? Porque tenho de continuar a viver, numa busca inútil pela felicidade que tenho a certeza de que nunca vou recuperar? Qual é a razão para eu continuar aqui? Ainda não a descobri... E tenho a certeza que nunca a encontrarei... Porque não existe."

Uma lágrima solitária deslizou pelo seu rosto, caindo sobre a sua camisola. Olhou para a cidade à sua frente, adormecida pela luz ténue da noite. Tantas pessoas diferentes, tantas vidas diferentes, tantos sonhos, tantas esperanças, alegrias e tristeza... Tudo aquilo a punha cada vez mais triste e melancólica. Como ela queria poder deitar-se na sua cama, dormir um sonho tranquilo sem pesadelos, sorrir e pensar como era feliz... Não tinha ninguém, estava sozinha. Vivia sozinha, não permitira que ninguém ficasse com ela após o acidente. Ninguém iria substituir os seus pais, fizessem o que fizessem. Não voltaria a amar ninguém. Não podia permitir que voltasse a acontecer o mesmo. Na escola não tinha amigos. Não deixava ninguém aproximar-se dela, nem as suas antigas amigas, que faziam de tudo para tentar que ela voltasse ao normal. Mas ela não o permitia. Não tinha razões que a fizessem querer voltar ao normal, não havia nada a fazer. Apenas... Continuar a sofrer. Em silêncio.

Com um suspiro, desviou o seu olhar da janela e caminhou até à sua cama. Aconchegou-se dentro dos lençóis, mas continuava a sentir frio. Contudo, isso era uma coisa que para ela se tornara habitual. Fechou os olhos, pedindo com todas forças a Deus que, se ele existia, por favor lhe desse uma noite descansada. Uma, apenas uma noite, em que ela pudesse dormir em paz, sem pesadelos. Com um novo suspiro, deixou-se levar para o mundo dos sonhos... Ou dos pesadelos.

Um leve ruído despertou-a. Um pouco confusa, ergueu-se da cama e ficou à escuta. Umas pancadas suaves na janela ouviam-se no silêncio da noite. Levantou-se e caminhou para a janela. Pequenas pedrinhas atiradas por alguém que ela não conseguia ver batiam levemente contra a sua janela. Um pouco a medo, abriu a janela e viu uma rapariga que parecia ter 20 anos sentada num ramo da árvore que fora plantada em frente à sua janela. Tinha um cabelo castanho que lhe chegava ao fundo das costas, um corpo elegante de alguém que já não é adolescente. Contudo, o seu rosto parecia o de uma pequena menina, uma menina que ainda não crescera, uma menina inocente e feliz. Os seus olhos azuis pálidos brilhavam à luz do candeeiro da rua. Ela conhecia aquele rosto de algum lado. De repente, despertou daquela ilusão provocada pela visão daquela rapariga que era estranhamente familiar.

- Quem és tu? Que estás aí a fazer? Como entraste aqui em casa? - Perguntou ela, na maneira fria que lhe era tão característica.

Porém, não obteve nenhuma resposta. A estranha rapariga limitou-se a sorrir-lhe e deixou-se cair da árvore, aterrando no seu jardim. Para sua surpresa, foi dominada por um sentimento que à muito não sentia....Curiosidade. Queria saber quem era aquela estranha rapariga. Deixou-se dominar por aquele sentimento, que para ela era quase novo. Apenas se deteve para ir buscar um casaco e desceu as escadas a correr, saindo pela porta de casa. A rapariga estava a sua espera, encontrada ao muro da casa, sorrindo para ela. Ela caminhou até à rapariga, detendo-se à sua frente. Pela primeira vez desde muito tempo ela sentia... Não o queria admitir, mas pela primeira vez desde o acidente sentia-se viva novamente. O frio que ela sentia começou a desaparecer. Espantada, virou-se de novo para a rapariga.

- Quem és? Que queres? Como entraste aqui em casa?

- Há perguntas que não precisam de ser respondidas. A magia está na incompreensão das coisas... Quando conheces totalmente uma coisa, ela perde completamente o seu mistério. Há coisas que não foram feitas para ser compreendidas. É nesse mistério que reside a sua magia. - Respondeu calmamente a rapariga, sorrindo ainda mais.

Ela sentiu a sua curiosidade aumentar cada vez mais. Até a sua voz lhe era familiar. E o que ela dizia fazia sentido, apesar de ter deixado à muito de acreditar em magia. O seu fascínio por aquela estranha rapariga aumentava cada vez mais. Esfregou os olhos, pensando se aquilo tudo não seria apenas um sonho. Quando os abriu, a misteriosa rapariga não estava lá mais. Rindo por dentro, perguntou-se como pudera ser tão parva ao ponto de acreditar naquilo. Contudo, um sentimento de desilusão e desconsolo espalhava-se no seu corpo à medida que o frio habitual regressava. Pela primeira vez, ela tinha acreditado que não estava sozinha. Pela primeira vez, um leve sentimento de esperança foi sentido. Contudo, não passara de um sonho. Ou pesadelo....

Suspirando, virou-se para entrar casa. Dois olhos azuis pálidos acompanhados de um sorriso fixavam-na. Um grito cortou a noite.

-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

- Desculpa desculpa desculpa! Não queria assustar-te! - A rapariga correu para ela. - Tem calma! Foi só um susto! Desculpa... Não devia ter desaparecido assim.

- Assustaste-me! - Ela pôs a mão no seu peito ofegante, enquanto o seu coração batia descontroladamente.

- Por momentos perguntaste a ti mesmo se eu não era apenas um produto da tua imaginação não foi?

- Eu... Não... Como...? - Balbuciou ela. Aquele olhar enigmático parecia ler-lhe os pensamentos.

A rapariga apenas sorriu e pegou-lhe na mão.

- Vem.

Foi tudo o que ela disse. E ela foi. Ela puxou-a ao longo da cidade, até que chegaram a um pequeno descampado nos limites da cidade, onde passava um pequeno riacho. Estava uma noite estrelada e naquele sítio via-se um céu completamente limpo, polvilhado de pequenas estrelas como se fossem pequenos grãos de areia. Ela parou, olhando espantada para o céu estrelado. Como era bonito... Nunca imaginara que naquela cidade houvesse um sítio tão bonito como aquele. Deitou-se sobre a relva, e ficou ali a apreciar aquela beleza que ela tinha desprezado durante todos aqueles anos, demasiado concentrada no seu próprio sofrimento. As estrelas pareciam sorrir para ela, aconchegando-a e fazendo-a sentir... Feliz. Sim, pela primeira vez ela sentia-se feliz. E tudo graças àquela misteriosa rapariga, que lhe parecia tão familiar. Levantou-se e abraçou os próprios joelhos. Os pirilampos dançavam sobre o pequeno riacho, reflectindo a sua luz nas águas calmas. Ela observava aquele espectáculo maravilhoso, sentindo pela primeira vez que não estava sozinha. Espantada, sentiu os seus lábios subirem formando um sorriso. Um sorriso! Algo que ela pensava que tinha morrido também no dia do acidente. No dia em que... Sentiu a sua raiva voltar de novo. Porque apesar de toda essa felicidade que sentia sabia que amanha quando acordasse ia continuar sozinha... E nada ia mudar isso. Uma lágrima caiu pelo seu rosto. A rapariga, que até aí tinha estado deitada ao seu lado, levantou-se também. Estendeu a sua mão para a lágrima, tentando limpá-la.

- Pára! - disse ela, afastando bruscamente a mão da rapariga.

- O que é que se passa?

- Tu não percebes... Tu não percebes nada! Tudo isto é muito bonito... Mas não muda nada! Eu continuo sozinha, completamente sozinha! As duas pessoas que eu mais amava abandonaram-me... Já não tenho ninguém! Porque é que eu não morri com eles? Porque é que tenho que passar por este sofrimento todo? Não faz mais sentido viver, não quero, não quero! Não quero... E não venhas com essa história de que eles foram para um sitio melhor, porque eu não tenho 4 anos! Eles estavam muito bem aqui, não precisavam de ir para nenhum sítio! Nós éramos tão felizes... Porque é que essa felicidade teve de ser destruída? Porque? Que tipo de Deus é este que destrói a felicidade de uma família?! Eles eram a minha vida... E agora ela acabou... Não há nada a fazer, nada que se possa mudar... Eu já me habituei a isso... Por isso não me faças sofrer mais! Eu sei que isto tudo é apenas uma ilusão e que amanha vai voltar tudo ao mesmo...

Dito isto, ela começou a chorar. A rapariga apenas passou os braços à volta dos seus ombros e encostou a sua cabeça ao peito dela, deixando-a chorar à vontade. E começou-lhe a fazer ao ouvido, à medida que o choro dela ia acalmando.

- Sabes... Gostava que tivesses quatro anos... Pois aí podia dizer-te apenas que tudo ia ficar bem e que não era preciso teres medo. Mas nem tu tens quatro anos nem eu sou mentirosa. Eu sou tanto como tu, apenas mais uma peça de xadrez neste tabuleiro gigante que é o universo. Não sei os planos de Deus, ou porque é que Ele faz o que faz. Ninguém sabe. Mas continuam acreditar n'Ele. Isso chama-se Fé. A fé é um algo incerto, pois tu nunca sabes se aquilo em que acreditas é realmente verdadeiro. Apenas... Acreditas. E essa fé pode ser incerta, mas dá-te força para continuares, não importa os abanões que leves. Porque aconteça o que acontecer, tu tens algo em que acreditas. E isso faz-te perceber que não estás sozinha. Porque eu não posso mudar nada. Adorava poder fazê-lo mas não posso. Ninguém pode... Excepto tu. Tu és a única pessoa que o pode fazer. Porque se tu acreditares tudo será possível. Basta acreditares. E acredita que não é apenas uma daquelas frases feitas, para te consolar. É a realidade. Tu podes não acreditar em nada do que eu te estou a dizer. Mas um dia... Tu irás perceber.

Ela não respondeu. Apenas sorriu. A rapariga sorriu também, entendendo aquilo como um "sim". Levou a mão ao bolso e tirou um colar que entregou-lhe. Ela ficou pálida. Aquele colar... Ela conhecia aquele colar... Ou um muito parecido. Ela um colar em forma de gota, uma pequena gota brilhante. Era o colar que a sua mão usava sempre, dia e noite, nunca o tirava. Era o colar que ela sempre admirara e sempre desejara secretamente que um dia pudesse ser dela.

- Mas.... Como?... Não pode...

A rapariga apenas sorriu enigmaticamente. Ela sorriu também a apertou firmemente o colar na sua mão fechada. Agora sim, ela podia ser feliz. A rapariga levantou-se e começou a caminhar pelo caminho que ia dar à cidade.

- Espera! Onde vais? Alguma vez voltarei a ver-te?

A rapariga respondeu-lhe com um sorriso. Com aquele sorriso enigmático que tanto a fascinava.

- Eu faço parte de ti. Por isso enquanto acreditares em ti e em mim, eu vou sempre existir em ti.

Ela não percebeu muito bem aquela frase. Mas como tudo aquilo lhe parecia tão irreal que apenas insistiu:

- Nem sequer sei o teu nome....

- Kaijin. O meu nome é Kaijin.

E dizendo estas palavras a rapariga foi engolida pela noite e desapareceu.

Um mês se passou desde aquela estranha noite. Tudo aquilo lhe parecia apenas um sonho, mas um certo colar em forma de gota que ela usava dia e noite, fazia com que ela não tivesse mais remédio senão acreditar. Nunca conseguiu perceber o que se passara naquela noite... Nem queria. Como uma certa pessoa uma vez lhe tinha dito "A magia das coisas reside na sua incompreensão". Só gostava de saber o que ela queria dizer com o "fazer parte" dela. Talvez nunca viesse a compreender aquela frase. O que lhe importava é que agora ela era feliz. E não estava mais sozinha. De repente, uma voz ofegante arrancou-a dos seus pensamentos.

- Yuki! Espera por mim!

Era Mizuno, uma das suas melhores amigas. Desde aquele dia, a sua atitude mudara completamente. Deixara de ser fria e solitária e voltara a ser aquela menina alegre e carinhosa que era antes do acidente. Abrandou o passo, para que Mizuno a conseguisse apanhar.

- Bom dia, Mizuno.

- Bom dia, Yuki.

- Sabes o que eu descobri? Há um cabeleireiro no centro da cidade que consegue prever como tu vais ficar daqui a uns anos, usando um programa de computador! Queres vir lá comigo depois das aulas?

- Claro! Quero ver como vou ser quando for muito velhinha – disse Yuki rindo.

Depois das aulas, o grupo de raparigas dirigiu-se ao cabeleireiro. Estavam entusiasmadas com aquilo, era falado em toda a cidade. Entraram no cabeleireiro e sentaram-se à espera da sua vez.

Uma cabeleireira veio ter com elas.

- E quem vai ser a primeira?

- Pode ser a Yuki.

- Por mim tudo bem – disse outra rapariga.

- Concordo – exclamou outra.

- Eu? Está bem... – respondeu ela, levantando-se.

Yuki seguiu a cabeleireira até a uma pequena sala na parte de trás do cabeleireiro, onde estavam vários computadores. Yuki entregou uma foto sua que foi introduzida no computador. Fizeram lhe várias perguntas sobre se gostaria de mudar alguma coisa, com quantos anos queria, etc. Passado algum tempo chamaram-na novamente para ver o resultado. Quando ela olhou para o computador sentiu as suas pernas a fraquezar. Porque a rapariga que ali estava não era ela. Mas sim Kaijin. E finalmente, todas as peças daquele puzzle se encaixaram, e tudo fez sentido. E sorriu. O futuro deixara de a assustar. Porque ela já o vira. E gostara.

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Este é um dos meus textos antigos, que surgiu a partir de um desafio: Criar um texto a partir de uma imagem ^-^. Peço desculpa por ser enorme, mas só gosto de fazer ou histórias compridas ou poemas xD.





Caeiro em mim

Estava no meu quarto em frente ao computador e sem vontade e sem inspiração nenhuma de escrever o texto livre para Português. Mas de repente como se por magia, não sei explicar como, algo aconteceu em mim. Já não estava ali como Miguel, nem pensava como tal. Eu tinha encarnado Alberto Caeiro e era como se fosse ele que estava ali no meu quarto a contar a história da sua vida. Era o meu corpo mas com a alma de Caeiro.
Foi então que este texto começou a ser escrito, não por mim, mas por ele. Vou passar para aqui o que encontrei escrito no meu computador quando voltei a mim.

“ Pessoa criou-me como seu heterónimo, mas não só. Eu existi mesmo e ainda existo, mas dentro da imaginação e da alma de alguns e consigo domar estes corpos e escrever a minha obra e continuá-la para todo o sempre, para que nunca seja esquecido e que seja lembrado como o maior poeta de todos os tempos de Portugal. Fernando Pessoa ao criar-me transmitiu-me toda a sua sabedoria e toda a sua força de escrita e desejou que eu existisse. Esse desejo concretizou-se, mas este nunca o ficou a saber. Agora o que quero é escrever e escrever sem parar nunca mais.
Ao longo destes anos todos após a minha morte para Fernando Pessoa, em todos os corpos por onde passei tenho retirado algo que me faz ficar ainda um melhor poeta. Aprendo sempre muito com todos os que utilizo para escrever a minha grande obra. E vou continuar a escreve-la até que consiga encontrar mais uma vez o meu criador, Fernando Pessoa, para lhe dizer que existo e que a minha obra nunca mais vai parar.
Quero deixa-lo orgulhoso do seu mestre e de muitos outros poetas do nosso país que escreverem comigo na sua alma, mostrando muitas das minhas facetas. E de como a sua criação pode ir tão longe e até onde pode ir. E é por isto tudo e pelo meu amor a escrita que vou continuar a escrever até que a minha alma se dissolva em palavras escritas por um génio.
Alberto Caeiro mestre de Pessoa e de Portugal”

Foi este texto que encontrei escrito aqui quando voltei a mim. Não sei o que aconteceu e não consigo encontrar nenhuma explicação lógica para isto. Só sei que aconteceu. E acredito que Alberto Caeiro existe, pode não ser na realidade, mas em sonhos que qualquer um tem. Por isso não deixem de sonhar…

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Ciclo Obrigatório

Existira tudo irrepreensível,
Tudo em tom gracioso e afável.
Foste deslumbrante e incrível
Estiveste na vida, irrecusável.

Num sopro, o em tudo perfeito
Passou, brevemente, rarefeito.
O que sonhara não fora feito…
Eu mesmo desvaneci, desfeito.

Fora no sonho que a alma,
Aquela que, feliz, te sorriu,
Se achou na avarenta calma
Até que o teu brio me feriu.

Naquela aparente fé
Permaneci indolente,
Mentindo-me a mim,
Fraco, apático, carente.

Doeu? A dor não passaria
De um sentimento que fitei
Pois ela, longa, escassearia
Com o tempo que nem fixei.

O vento transportara
A esperança levemente,
Aquela que me levara
A consistir transparente.

Invisível – o sinónimo competente,
Que reflecte o que senti,
Que reflecte o que fiz por ti,
O qual conta a vida inconsistente.

Conseguiu a leveza,
Símile à que me mudou,
Que por ti me apaixonou,
Limpar a mágoa com clareza.

Lentamente me atrevi.
O velho tornou-se novo.
Aquilo que antes em mim vi,
Recriou-se com toda a beleza.

A paixão é o círculo do ovo.
O ser nasce, cria e morre.
Torna a nascer até que torre.
É na embustice que o tempo escorre...

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Nota de autor:
Poema criado algures em 2006.
Se alguma vez necessitar dele por algum motivo, por favor, peça a minha autorização e consequente crédito. Avaliado de 19/20 como texto livre em Português B 12º ano.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Primoris Trivialis

Seja bem-vindo meu caro leitor que nos lê neste humilde blog. Como o seu título indica, iremos tentar levar com que as publicações aqui sejam de cariz literário, tanto com histórias, crónicas, poemas entre outros tipos de escrita que nos possa vir à cabeça.
Podendo ser raro nos dias de hoje, este blog tem como ponto crucial funcionar como uma pequena comunidade, isto é, existirão algumas pessoas que terão a liberdade de publicar os seus trabalhos aqui. No caso do leitor estar interessado a participar nesta panóplia, não hesite!
Com algum fulgor, despeço-me para já.