quarta-feira, 21 de maio de 2008

Fim

E o rapaz virou costas. Sorriu, e andou. Não sentira mais a dor ou a saudade. Sentira que tinha acabado. Não ousou olhar para trás uma só vez. A chuva caía. Os passos marcavam a despedida. Ela olhou, sentira a saudade, não dele, mas do seu amor, mas nada havia a fazer, restava-lhe o consolo de ter feito o melhor por ele. As lágrimas caiam-lhe e a chuva misturava-se com elas no seu rosto descoberto pelo cabelo que dançava à melodia do vento. Ele partira. Sem ponta de ressentimento ou rancor. Atravessou a rua, adiantou o passo e chegou ao passeio. Sentia-se bem. Livre, aliviado e feliz. Sentira-se a voar. Ouvira as palavras que não ousava sequer pensar; mas estava-lhe grato: ela não teve medo de falar, nem sequer de se abrir. Dissera-lhe tudo como explicado a uma criança. Não o poupara da verdade, não o consolara com a mentira. Não ousara dizer que o amor por ele ainda estava vivo. Não teve coragem de lhe mentir olhos nos olhos. Custou, só ela sabe o quanto, mas estava de consciência tranquila. Uma história sem final feliz. Um amar sem vice-versa. Um querer solteiro. Por muito que ela quisesse, ela sabia que também uma amizade tinha morrido: restava-lhe compreender e aceitar, sem considerar julgar. Por muito que ambos desejassem, o amor jamais iria possibilitar uma amizade que vive da igualdade, que era tudo o que lhes faltava. O rapaz desapareceu por entre a hora de ponta do passar dos carros. A rapariga limpou as lágrimas, respirou fundo e levantou-se. Pôs os óculos sem haver sol, lamentava um perdão sem haver culpa. Naquele momento desejava amar quem o fazia por ela, mas por qualquer razão não era isso que o coração lhe segredava ao ouvido antes de dormir. Não era por ele que o seu coração vibrava, não era por ele que os seus olhos brilhavam. Ele merecia tudo, e nada lhe era dado. Ele amava forte, deixava razões de lado, e nem assim o seu amor encontrava espelho. Ela agora rezava pela felicidade dele acima da sua própria: Tinha certeza que algum dia ele haveria de encontrar alguém melhor que ela, e que lhe soubesse dar o que ela nunca conseguiu retribuir. Entrou para o autocarro. Parou e olhou para a escadaria onde se tinham sentado instantes antes. Verificava de longe se algo ficara abandonado para trás. Percebeu que não. Ambos tinham arrumado as suas coisas: ela tinha pegado na sua pequena carteira, ele na sua pesada mochila. Nada tinha sido deixado para trás. E a porta fechou. O autocarro arrancou. Ela andou e sentou-se no último banco à direita atrás. O autocarro seguiu pela rua, e passou por uns semáforos virados para verde. Ela olhava com nostalgia o mundo lá fora e vira-o à espera do sinal no passeio. Ela olhou-o e ele fez o mesmo a ela. Ele acenou levemente com a cabeça e sorriu. Ela fez o mesmo. Uma lágrima apareceu no canto do olho do rapaz, mas o andar do autocarro não a deixara ver. E o sinal mudou. Ele limpou a pequena lágrima e atravessou. O autocarro já ia longe e ele seguia o seu caminho como ela o fizera. Não voltaram mais a dirigir palavra um ao outro. Ele não tentou mais encontrar o olhar dela. Ela não tentou mais abrir-lhe um sorriso. E assim acabou, e no passado ficou o que o amor não deixou continuar.

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Texto escrito por : André Luz. Devido a ele não ter conta no Gmail, eu publiquei-o ^-^.

2 comentários:

DaiKaio disse...

Gostei imenso da maneira suave com que descreves toda a acção desta história. Todas as figuras de estilo estão muito bem adaptadas e não só suavizam o passar dos acontecimentos como também acentuam o sentimento nostálgico proveniente das personagens.
Em termos de conteúdo, digo que o tema é uma realidade. Texto sentido.

Anônimo disse...

Ena, adorei este por completo. Escreves bem e escreves sempre realidades. *.*