quarta-feira, 21 de maio de 2008

Não és tudo

Hoje lembrei-me e espero não me esquecer. Fora de quaisquer exageros românticos ou obsessões lamechas, não és a minha vida, não és a sua razão de ser e nunca serás. Não quero nem posso depender de ti assim. A vida vai muito além do amor que sinto por ti, os melhores momentos nem sempre são contigo e os meus objectivos de vida não passam somente por te conquistar. Lamento nem sempre conseguir limitar-te a seres parte do meu mundo, lamento nem sempre conseguir parar de te viver, não depende só de mim, depende da minha falta de força, da minha fraca resistência e da minha excessiva entrega àqueles que amo. És importante, não posso negar, contestar ou difamar: mas fica por aí, não podes tornar-te exclusiva ou indispensável, pois ambos sabemos que a constância não é o teu forte, e a envolvência não é o meu fraco, por isso estabeleço hoje e aqui, limites, barreiras e distâncias. Não posso continuar a viver-te incansavelmente, a controlar a tua atenção e a contar os segundos que demoras a prestar-ma, não posso entregar assim a minha felicidade a quem nem sempre cuida bem dela, não posso continuar a girar a minha vida em tua volta, não posso mais orbitar em volta da tua presença, não posso viver tendo-te como minha base e não posso apoiar todas as minhas esperanças e aspirações em ti. É uma responsabilidade que o teu amor jamais cobrirá, e que tu alguma vez mereças ter. Por isso aprendo tarde, pior que cedo, melhor que nunca que tenho de criar um espaço meu, longe de ti, longe do teu sorriso, dos teus beijos, do teu abraço e de tudo aquilo que julgo poder pagar minimamente o que te quero dar incondicionalmente. Tens definitivamente de descair do pedestal onde eu te coloquei, aos poucos, e eu tenho de perder esta dependência que nutro por ti e que me controla cada vez mais dia após dia. Não posso querer acordar só para te ver, não posso querer dormir só para te sonhar. Não posso nem quero. Não mereces tal tipo de atenção, não só por não a retribuíres mas também por não a valorizares como eu preciso. Não, não podemos ter aqueles amores loucos, incondicionais e arriscados, porque simplesmente cansei de arriscar sozinho, cansei de dar tudo sozinho e cansei de ter medo de amar também sozinho. Chama-lhe cobardia, denomina-o de complicação, caracteriza-o de apenas imaginação, mas se há algo que sei, é que o amor tem o poder mítico de dobrar personalidades: perfura barreiras, queima friezas, encurta distâncias, ignora diferenças, calca orgulhos, pois então e porque só o meu tem este poder? Porque só eu me derreto, porque só eu cedo, porque só eu me aproximo, porque só eu me dou por completo? Cansado de ser o accionista maioritário, cansado de ser o maior investidor, retiro hoje o que dou a mais, e ensino hoje algo ao amor que sinto por ti: limites e distâncias. Racionalizo o meu sentimento como alguém me disse, dou-lhe regras e tento hoje dominá-lo com a esperança que amanhã o consiga fazer, e tudo para que depois de amanhã não me espete e perca tudo aquilo que te dei e que não soubeste cuidar, tudo aquilo que suportei em ti e que não conseguiste segurar, tudo aquilo que apostei em ti e não fizeste render…

------------------------------------------------------------------------------------------------

Outro texto da autoria de André Luz.

3 comentários:

DaiKaio disse...

Um pouco do que disse no outro texto, também se aplica a este. Dou uma nota de sintaxe que por vezes o ";" ficaria melhor enquadrado que o "." ou até mesmo a "," mas isto são pormenores minimamente importantes.

Mais uma vez demonstras sentimentos de uma forma sentida, principalmente recorrendo a enumerações baseadas em estruturas frásicas semelhantes, o que é bastante apropriado para este estilo de texto.

Apesar de me ter afeiçoado mais ao outro texto, este também não deixa de merecer o seu crédito.

L'Orange disse...

Só posso dizer que adorei. Está muito bom.Identifico-me bastante com ele e acho que tens muita razão naquilo que escreveste. Dou-te os meus parabéns. Gostei muito mesmo, tou aqui quase a chorar loool..escreve mais destes

Anônimo disse...

Tá muito forte, mesmo. Gostei imenso do que escreveste! Por vezes também me identifico com o texto. Continua ;)...